segunda-feira, 29 de novembro de 2010

FUNÇÃO MATERNA E AUTISMO: UMA ANÁLISE DO CASO JOEY

Resumo TCC – “FUNÇÃO MATERNA E AUTISMO: UMA ANÁLISE DO CASO JOEY”
Bárbara Nascimento Ayrosa
Orientação: Profa. Dra. Paula Regina Peron
Parecerista: Profa. Silvana Rabello
Nota do parecerista: 8,5
Nota final: 9,0
FCHS – PUC - SP – 2010


Resumo-
O trabalho analisou a história de vida do garoto Joey, relatada em A Fortaleza Vazia pelo autor Bruno Bettelheim, com o objetivo de analisar a falha na função materna nos primeiros meses de vida do garoto, bem como quais foram suas conseqüências para que ele se constituísse de maneira autista. Nele constam fotos do quartinho de Joey, mostrando toda a maquinaria montada pelo garoto.


Introdução
Autismo
• psicopatologia infantil bastante grave
• estudada pela Medicina e Psicologia
• etiologia não esclarecida

- Leo Kanner, em 1943, foi o primeiro a expor estudos sobre autismo, nomeando de “autismo infantil precoce”. Ele acompanhou crianças com comportamentos semelhantes:
• respostas incomuns ao ambiente
• maneirismos motores estereotipados
• inabilidade de desenvolver relacionamentos
• atraso na aquisição da fala (tendência à ecolalia)
• manutenção obsessiva da rotina
• falta de imaginação
• boa memória
• fisionomia normal

- Kanner observou frieza e distancia das mães perante as crianças que ele acompanhou.
→ utilizou a relação mãe-bebê para explicar a etiologia do autismo.
- Há controvérsias quanto à etiologia do autismo. Segundo Tamanaha (2008), há duas abordagens teóricas distintas quanto às hipóteses para etiologia:
• teoria afetiva (relacional) → psicanálise
• teoria orgânica que prioriza falhas cognitivas e sociais → biologismo
- Tentando padronizar as diferentes formas de entender o autismo, desde 1994, a Associação Americana de Psiquiatria, no DSM-IV, passou a classificar crianças autistas e psicóticas como uma categoria denominada “portadores de distúrbios globais do desenvolvimento”
- Outra forma de tentar um diagnóstico do autismo, o CID-10 caracteriza como um desenvolvimento anormal ou alterado, apresentando falhas de funcionamento nas áreas de comunicação e interação social, com manifestações de comportamento repetitivo.
- Para a psicanálise, o autista não se constituiu como sujeito, mas sim autisticamente.
- Jerusalinsky, apud Kupfer (2000), compreende que o autismo é uma falha na função materna, enquanto que a psicose é uma falha na função paterna.
- Calligaris (1989) remete o autismo a uma precoce problemática de defesa, uma tentativa de apagar a demanda do outro, se anulando.
- Na visão da Psicanálise Lacaniana, o comportamento isolacionista deve-se à ocorrência de falha em algum momento da relação mãe-bebê durante os primeiros meses de vida deste.
- Para Lacan, a constituição subjetiva depende da relação com o Outro.
→ dependência de outro ser humano para sobreviver e se constituir.
→ mãe/cuidador (função materna) tem grandes responsabilidades.
- Se houver falhas, ou seja, se a mãe ou o cuidador não conseguir supor um sujeito no bebê e não o investir libidinalmente, poderá ocorrer sérias conseqüências na constituição psíquica dessa criança.
- Kupfer (2000) afirma que as falhas por parte das mães de autistas não se trata de atitudes conscientes, mas sim inconscientes, não intencionais.

Método
- O trabalho refere-se a uma pesquisa em Psicanálise.
→ teoria sobre o psiquismo (Violante, 2000).
→ objeto de estudo: o inconsciente.
- Laplanche entende que a sexualidade também é um objeto da psicanálise, já que está implicada na constituição do psiquismo.
- Para psicanálise, a constituição psíquica do sujeito não é algo natural.
- Na psicose e no autismo o sujeito não se reconhece como um sujeito e nem seu Eu é reconhecido pelos outros.
- Trata-se de uma pesquisa teórica, em que há a análise de um caso da literatura psicanalítica (Caso Joey) para examinar as noções de autismo infantil e a interferência da função materna (ou falha desta) para a constituição psíquica autística.

Capítulo 1 – Descrição do caso
- O Caso Joey foi um caso de Bruno Bettelheim (1903-1990) e relatado em seu livro A Fortaleza Vazia.
- Bettelheim
→ nasceu em Viena
→ família da alta burguesia judia
→ estudou literatura, história da arte e estética
→ interessou-se por psicanálise e a partir de 1932 pelo tratamento psicanalítico infantil
→ foi deportado para um campo de concentração, em 1938, ficando lá por um ano.
→ após sua liberação, dirigiu de 1943 a 1973, a Escola Ortogênica de Chicago (EUA) - instituição para o acolhimento de crianças que sofriam de distúrbios afetivos graves, especialmente autistas.
→ Joey foi atendido nessa escola e alcançou um sucesso relativo

Joey
- Segundo Bettelheim, Joey não se sentia uma pessoa, mas sim um dispositivo mecânico.
- Criou seu próprio mundo onde não havia sentimentos, só máquinas.
- O casamento dos pais de Joey foi uma tentativa de solucionar traumas de casos amorosos anteriores.
→ a mãe amou um homem que morreu na Segunda Guerra Mundial
→ o pai também teve um amor infeliz
- Os pais não estavam preparados psicologicamente para ter um filho.
- A mãe e a maternidade
→ não deixou que a maternidade provocasse qualquer emoção
→ “Nunca me dei conta que estava grávida” (p. 259).
→ o nascimento do bebê não fez nenhuma diferença.
→ em partes gostou de ter um filho, pois diminuiria sua solidão
→sentiu-se apavorada com a responsabilidade da maternidade e com medo de não ser uma boa mãe - se desprendeu do bebê
→ considerava Joey uma coisa.
→ não quis vê-lo nem amamentá-lo.
- Segundo Bettelheim, Joey não foi acolhido e nem rejeitado, ele foi simplesmente ignorado, tudo isso devido a uma ansiedade absoluta e reprimida como um ato de defesa.
- Ao ir para casa, Joey “chorava quase o tempo todo” (p.260), sofria de cólicas, alimentava-se a cada quatro horas rigorosamente, era trocado quando necessário. Ninguém brincava com ele e nem o embalava para dormir.
- Com o passar do tempo, passou a bater violentamente a cabeça, balançando-a ritmicamente para frente, para trás e para os lados.
- O pai
→ era militar
→ transferido para outra unidade de trabalho
→ descarregava freqüentemente sua irritabilidade no bebê.
- Com um ano e meio, Joey e sua mãe se mudaram para casa dos avós maternos, que observaram uma mudança estranha e evidente em seu comportamento. Notaram um envolvimento com máquinas, e principalmente, com um ventilador que ganhou de seus pais em seu aniversário de um ano. Joey desmontava e remontava o presente repetida e incansavelmente.
- Bettelheim entende que o interesse pelo ventilador é justificado pelo fato de Joey ser levado desde muito cedo para o aeroporto quando seu pai embarcava e desembarcava de suas viagens a trabalho. Tais viagens tiveram grande significado para o garoto.
- Joey
→ era uma criança autista que falava, embora não se comunicasse
→ por viver em um vazio, sua linguagem foi se tornando abstrata e despersonalizada
→ não utiliza os pronomes
→ classificava os alimentos em novas categorias, passou a substituir a qualidade nutritiva dos alimentos por qualidades físicas
→ aos quatro anos de idade foi encaminhado para uma escola maternal para crianças perturbadas.
- A orientadora infantil reconheceu a necessidade de um tratamento psiquiátrico para o menino, já que vivia isolado e só se interessava por movimentos giratórios.
- Na clínica, Joey foi diagnosticado autista e proposto um tratamento psicoterápico individual tanto para a criança como para os pais.
- Os anos de terapia para os pais proporcionaram um progresso e melhora na relação do casal até um nível satisfatório. Eles tiveram mais dois filhos não autistas, uma menina seis anos mais nova que Joey e um menino treze anos mais novo.
- Durante a terapia e a escola maternal
→ apresentou alguns progressos embora tenha mantido os comportamentos autísticos – nunca brincou com as outras crianças
→ passou a reconhecer a existência de sua terapeuta e até a interagir um pouco com ela
→ passou a utilizar pronomes pessoais ao contrário
→ após um ano passou a chamar a terapeuta pelo nome
→ pouco depois de seu tratamento com essa terapeuta acabar, passou a utilizar o pronome “eu” na forma correta e identificar além da terapeuta, algumas crianças pelo nome.
- Mas seis anos era a idade limite permitida para a escola maternal, então passou dois anos seguintes em um internato, perdendo muito do seu progresso conquistado. Voltou a um mundo despersonalizado, dirigia só a mãe, manifestava-se por murmúrios. Não era mais capaz de utilizar pronomes pessoais e nem chamar as pessoas pelo nome.
- Joey voltou para casa enquanto aguardava ser admitido na Escola Ortogênica. O menino não falava mais nem “mamãe” e sua relação com ela só piorou, pois toda a atenção era direcionada a filha mais nova.
- O garoto foi mergulhado em uma raiva, tornando sua própria vida insuportável, levando-o a cometer uma tentativa de suicídio.
- Joey na escola de Bettelheim
→ aos nove anos e meio foi admitido pela Escola Ortogênica
→ apresentava estatura menor que o esperado, estava magro, parecia frágil, “um homem mecânico” (p. 254).
→ encontrou um mundo em que sentimento era sinônimo de sofrimento, então criou um mundo próprio, sem lugar para sentimentos. Interessava-se pelas máquinas, por serem mecânicas e isentas de emoções
→ era uma criança carente
→ sua realidade era a das máquinas
→ observaram atentamente sua entrada na sala de jantar, por exemplo. O menino ligava a si mesmo com um fio imaginário a uma tomada imaginária antes de comer, porque só a corrente fazia funcionar seu aparelho digestivo.
→ aproximação de Joey com Fae, Bárbara e Lou, suas orientadoras e seu professor, por volta dos doze anos, deixou de agir como um aparelho mecânico, para ser uma criança humana, tornando-se um recém-nascido
→ após nove anos na escola, já era capaz de sentir emoções e desejava ser amado, demonstrava vontade de dirigir sua própria vida e comunicou que queria voltar a morar com seus pais para recomeçar sua vida em família.
- Joey completou sua educação em uma escola técnica e após o término de seus estudos, pediu aos pais para visitar a escola de Bettelheim indo sozinho até Chicago. Nessa visita, Bettelheim pediu a Joey o consentimento de publicar sua história.

Capítulo 2 – Autismo Infantil
- Autismo abrange diversas maneiras de ser compreendido. “O autista do neurologista não é o autista do psicanalista” (Kupfer, 2000). Mesmo entre os psicanalistas há divergências sobre o assunto.
- Há uma parte dos psicanalistas os quais acreditam que as falhas de estrutura do autismo não são, necessariamente, as da psicose. (Penot, 1997).
- Jerusalinsky propõe uma quarta estrutura clínica, a autista, além da psicose, neurose e perversão proposta por Lacan. (Kupfer, 2000).
- A função materna tem como principal objetivo dar possibilidade de surgir um sujeito no bebê, enquanto que a função paterna tem a principal missão de barrar, mediar à relação desejante estabelecida entre uma mãe e seu bebê, carregando a lei, inclusive a castração. (Jardim, 2000).
- Autismo X Psicose
→ Jerusalinsky: Autismo = falha da função materna e um caso de exclusão.
Psicose = falha na função paterna e um caso de foraclusão.
→ Lacan: Foraclusão = se produz uma inscrição do sujeito.
Exclusão = não há inscrição.
- Para Lacan, o que caracteriza a estrutura psicótica é a não ocorrência e, portanto, a não inscrição da castração no Inconsciente. A psicose é uma estrutura em que o Nome-do-Pai é foracluído do Simbólico. (Lima, 2001)
→ Calligaris (1989): Autismo = aquém da psicose; tentativa de apagar a Demanda do Outro, se anulando.
- Conclui-se então que, apesar de quadros diferentes, autismo e psicose se tratam de efeitos de uma falha na educação primordial e esta inscreve marcas simbólicas no psiquismo, impossibilitando uma fundação de um sujeito. (Lima, 2001).

Histórico do autismo
- Surgiu na psiquiatria, em 1906, como adjetivo para pacientes com demência precoce.
- Kanner (primeiro a publicar estudos profundos sobre autismo) oscilou no transcurso de seus textos, entre considerar uma síndrome genética e enfatizar as relações mãe-bebê para explicá-lo. (Kupfer, 2000).
- A partir dessa visão de Kanner, duas correntes de tratamento foram tornando-se claras:
→medicalização (visão biológica e genética)
→ psicoterapia (visão psicanalítica)
- A relação mãe-bebê não é totalmente consciente, então as mães não precisam se sentir culpadas pelo autismo de seus filhos. Mas, elas são responsáveis pelo futuro subjetivo de seus filhos. (Kupfer, 2000).
- Segundo Montgomery (1997), a gravidez é um período de grandes transformações físicas e psicossociais e então, é necessário que a gestante se adapte a essas mudanças.
- O nascimento de uma criança nem sempre é sinônimo de alegria para a mãe, como o esperado. O ideal de mãe perfeita foi construído ao longo da história da humanidade (Azevedo e Arrais, 2006) e a imagem idealizada da maternidade não é algo tradicional e natural da mulher, mas construída culturalmente. (Frona, 1999).
- Se uma criança se desenvolve autisticamente é porque algo impossibilitou a mãe de realizar sua função como necessário para a constituição psíquica de seu bebê, como um sujeito autônomo, falante e desejante. Pode também, o bebê não representar e suportar a posição desejante, não possibilitando uma relação saudável com a mãe.

Capítulo 3 – Constituição do Sujeito
- Bebê humano é extremamente dependente do outro para garantir sua sobrevivência física e psíquica, possibilitando a constituição de um sujeito.
- Para Psicanálise, a constituição do sujeito está intimamente ligada a linguagem, por isso, é necessário a existência de um Outro que sustente a temporalidade do desejo em relação ao bebê. (Jerusalinsky, apud Rabello, 2005).
- A construção de um eu deve acontecer durante a primeira infância, primeiro tempo de uma construção de uma imagem unificada do corpo. (Rabello, 2005).
- A função materna é o primeiro objeto a ser simbolizado e que inscreve o bebê no campo da linguagem.
- A mãe desejando o desejo do bebê, passa a oferecer ao bebê a possibilidade de intermediar-se ativa e significantemente com o mundo. (Kupfer, 2000).

Olhar materno
- Não se trata de um simples olhar, mas um olhar desejante para auxiliar na constituição do sujeito.
- O bebê tem que tomar um lugar ideal aos olhos da mãe. E esta desejá-lo e investi-lo libidinalmente. (Penot, 1997).
- Um exemplo do desejo ou do olhar materno se dá na metáfora do espelho, em que para Lacan, é o primeiro momento da constituição do sujeito. Se inicia com a construção da imagem corporal, através de um outro que lhe oferece um nome, uma história, uma imagem, um lugar social, o qual possibilitará em uma totalidade e maturação. (Kupfer, 2000).
- Para que o bebê ocupe o lugar de objeto de desejo é preciso que antes ele esteja constituído em seu genitor. É apenas no olhar de amor do Outro primordial que o bebê se tornará objeto de desejo. (Penot, 1997).

Mapeamento corporal
- É pela estimulação sensorial que o bebê apreende o mundo e toma consciência da dimensão de si próprio.
- No início, a representação psíquica é constituída de partes soltas, não interligadas. Através do investimento libidinal dos cuidados maternos com seu bebê, essa representação vai começando a formar uma dimensão de sujeito unificado. A mãe, então, auxilia na construção de um contorno corporal e posteriormente um ego. (Silva, 1997).
- Portanto, o corpo que será a expressão da subjetividade do sujeito é dependente de um Outro primordial: a mãe.

Manhês
- Além do olhar desejante, o investimento libidinal e a forma como a mãe toca o bebê, é importante o modo como ela se dirige verbalmente a ele, nomeada de manhês pelos psicanalistas. (Penot, 1997).
- Momentos de manhês são momentos especiais de conexão entre a mãe e o bebê. Vêm carregados de palavras com formas longas, melódicas, doces, além de expressões faciais exageradas, movimentos rítmicos do corpo que focalizam a atenção do bebê, são mais facilmente compreendidos e favorecem a comunicação. (Kupfer, 2004).
- Portanto, a mãe tem grande responsabilidade perante o processo de constituição de seu filho como um sujeito.

Capítulo 4 - A constituição autísitca
- Kupfer (2000) afirma que a razão para o autismo é a falha na função materna.
- Os primeiros traços, não olhar para o rosto de ninguém e não fixar a cabeça (hipotonia), já podem ser vistos por volta dos seis meses de idade.
- Uma simples deficiência orgânica pode não ser a única responsável para impedir o processo de subjetivação. (Lima, 2001).
- O autista não constituiu uma imagem narcísica de si, ele está anterior ao Estádio do Espelho lacaniano. Para ele não existe o Outro.
- Como não há uma estruturação narcísica primária, há uma debilidade no estabelecimento de relações com o mundo. (M. Silva, 1997).
- Calligaris (1989) propõe a existência de quatro tempos para a constituição de uma estrutura neurótica ou psicótica.
1) Disposição já inscrita no Outro
2) Relação com o Outro dito “materno”
3) Édipo
4) Latência e a saída na puberdade
Assim, há uma necessidade de cautela para o diagnóstico precoce de qualquer psicopatologia.

Ausência do olhar materno
- Falta do olhar materno é o primeiro indicativo para um risco de autismo ou uma dificuldade para “relação especular com o Outro”. (Penot, 1991).
- Segundo Freud (1914), o filho é um prolongamento do narcisismo parental, ou seja, eles transmitem uma série de desejos e demandas de suas vivências edípicas à criança. O filho precisa ocupar o lugar de objeto das demandas do Outro para entrar no campo da linguagem e se constituir como um sujeito.
- A criança autista não entra no campo de alienação ao desejo do Outro, pois o Outro não está lá, não investe a criança libidinalmente. Como não é vista pelo desejo do Outro materno, há uma impossibilidade da criança ver traçada sua imagem no olhar do Outro, e então, a passagem pelo Estádio do Espelho é inviável. (Lima, 2001).

Ausência da imagem corporal
- Na constituição corporal do bebê, a demonstração do investimento libidinal da mãe em seu filho é muito importante.
- A imagem corporal só permitirá a estruturação do corpo imaginário quando for procedida pelo olhar dos pais, constituindo-o imaginariamente para si. Se isso não ocorrer, como no autismo, o corpo sempre será uma “massa muscular”. (Silva, 1997).
- Pela falta de libidinização dos pais o corpo do autista não tem significado e não se unifica. Não há representação psíquica de suas funções.
- A criança autista se mantém presa a uma forma de identificação sensorial (identificação adesiva). Faz uso do corpo do outro como se fosse um prolongamento do próprio corpo. (Silva, 1997).

Ausência do manhês
- A falta desse estilo de fala materna com seu bebê deixa-o fora de qualquer discurso. (Penot, 1997).
- O manhês possibilita o surgimento da significação através dos cortes que a mãe faz e as interpretações.

A questão da linguagem
- O uso da linguagem do autista não é para se comunicar, é uma retomada idêntica do discurso de um outro (linguagem ecolálica). (Penot, 1997).
- É um discurso que não cruza uma cadeia de significantes, não há uma significação, pois não é dirigido a um Outro, não há um sujeito constituído para se diferenciar e se dirigir a um Outro. (Penot, 1997).
- É necessário que um ser humano tome a posição de destinatário das falas de uma criança autista. Segundo Lacan, “uma fala é apenas uma fala porque alguém acredita nela.” (Penot, 1997).
- Quando a mãe se coloca como destinatária da fala de seu filho, ela passa a fazer cortes nos enunciados do bebê e a dar significados para eles. É o que seria a “loucura necessária das mães” que Winnicott designou. (Penot, 1997).
- Falta a capacidade de representação nas crianças autistas. Há um espaço imaginário que é expressado por desenhos, por exemplo.
- Falta também o processo primário e o inconsciente como lugar das representações articuladas por deslocamento e condensação nas crianças autistas. Nos autistas bem pequenos o aparelho psíquico está aquém do recalque originário. (Penot, 1997).
- Pode haver o primeiro registro de inscrição dos traços mnésicos (memória). Mas, só é possível acessar esses traços se houver suas reinscrições no inconsciente. Assim, se o aparelho psíquico funcionar apenas no primeiro nível de registro, não haverá acesso aos traços de memória.
- No autismo há significantes que não são representados, há um bloqueio da representação.

Estereotipias
- Condutas estereotipadas são “meios de descarga, manobras de evitamento defensivo (elisão) contra a lembrança de traços mnésicos ou percepções dolorosas provenientes do mundo exterior.” (Penot, 1997).
- São como resquícios de gestos de comunicação, resquícios de um ato. Falta uma representação a essas condutas estereotipadas.

Capítulo 5 – Análise do caso
- Análise do caso a partir da teoria estudada e apresentada.
- Mãe de Joey não sentiu prazer em estar grávida, nunca se deu conta da gravidez.
→ não houve um investimento libidinal da mãe para o bebê desde a gestação
- O pai também se manteve ausente em relação ao Joey
→ não houve um prolongamento do narcisismo parental referente à história dos desejos edípicos dos pais.
- Após o nascimento, a mãe viu seu filho mais como coisa do que pessoa.
→ a mãe não o viu como objeto de desejo. Joey não teve um olhar de modo a desejá-lo libidinalmente.
- A mãe estava apavorada com a maternidade e sua responsabilidade.
→ seu modo de defesa foi o afastamento de Joey. A partir daí houve uma ruptura da função materna.
- Ninguém o embalava nem brincava com ele.
→ embalar o bebê é importante para que ele se veja como objeto de desejo de sua mãe; sua pele e seu corpo como alvo do amor e libido da mãe. Há também uma definição dos contornos do corpo do bebê; além do olhar materno, do manhês presentes no embalo.
→ não houve isso no caso Joey, favorecendo o fechamento autístico do menino.
- Bater a cabeça ritmicamente, para frente, trás e lados.
→ início das estereotipias
→ descargas motoras
→ defesa contra lembrança de traços mnésicos ou percepções dolorosas do mundo exterior
- Distanciamento da mãe
→ sem olhar materno, Joey nunca tomou a posição ideal aos olhos dela. Não foi visto pelo desejo do Outro.
→ portanto, não passou pelo Estádio do Espelho, indispensável para o advento da subjetivação.
→ um dos motivos para Joey se fechar autisticamente.
- Distância de seus pais
→ isolamento como uma defesa.
→ aconteceu uma exclusão com Joey, pois não havia inscrição do sujeito.
- Pai militar e sua volta para casa. Tensões entre o casal e medo da guerra.
→ sempre há um acontecimento marcante para a família durante os primeiros meses de vida do bebê. (Rocha, 1997).
→ esses acontecimentos podem ter afastado ainda mais os pais de Joey, não o vendo como objeto de desejo.
- Ventilador como presente de um ano de idade.
→ importância que Joey deu ao objeto, como se o presente representasse a libido de seus pais por ele.
→ querer montar e desmontar o ventilador como se quisesse reparar seu relacionamento com seus pais.
- Viagens do pai a trabalho.
→ grande significado para Joey, pois a mãe ficava ainda mais ausente na partida do marido e, provavelmente, alegre quando ele estava chegando.
→ Joey ficava no aeroporto com a mãe, procurando um sinal de afetividade.
- Joey falava, mesmo não utilizando a fala para se comunicar.
→ ele vivia num vazio emocional, sua linguagem era gradativamente abstrata e despersonalizada.
→ “porque ele se alimentava apenas de substâncias físicas e não de emoções” (p. 261).
→ A criança autista cria uma linguagem de acordo com a experiência emocional que tem do mundo. (Bettelheim, 1987, p. 262).
→ o discurso era uma descarga motora e não uma comunicação – falha na função materna e ausência de suas interpretações e significados.
- Evolução durante o tratamento psicoterápico na escola primária.
→ a terapeuta se colocou na posição de destinatária das falas de Joey e assumiu o lugar de Outro primordial, tentando uma existência de sujeito.
→ evolução na fala: uso de pronomes, mesmo que trocados, e chamar a terapeuta pelo nome.
- Não brincava com outras crianças
→ se defendia devido sua relação com outras pessoas serem dolorosas e sofridas.
→ isolar-se é a maneira de relacionamento que aprendeu e vivenciou. Isso devido à falha na função materna e paterna.
- Menino-máquina
→ no autismo não há um sujeito constituído, não há registro do inconsciente e nem fantasias.
→ há atitudes que para ele eram reais, que integravam e faziam parte de sua realidade, de suas vivências.
→ cria uma linguagem de acordo com a experiência que tem do mundo.
→ assim como o ventilador precisa ser ligado na tomada para funcionar, Joey precisava se ligar na energia para viver.
- Pais no processo de atendimento psicoterápico.
→ importante para que Joey pudesse evoluir, ser acolhido.
- Aos 6 anos, voltou a morar com os pais. Nascimento da irmã.
→ ela vista como objeto de desejo dos pais e Joey não.
→ afastamento maior ainda; tentativa de suicídio.
→ sentir é ser destruído, somente insensível poderia sobreviver. (Bettelheim, 1967).
- Aos 9 anos, Escola Ortogênica
→ suas duas orientadoras e seu professor investiram em Joey como objeto de desejo, ocuparam o lugar do Outro primordial.
→ fez com que surgisse um sujeito, mesmo com 12 anos, mas psiquicamente como um recém-nascido.
- Psicoterapia de crianças autistas: aposta de que um sujeito pode emergir.

Conclusão
- Função materna tem essencial importância para a constituição do sujeito.
- A falha dessa função é inconsciente por parte das mães.
- A falha na função materna pode resultar na constituição autista, como Joey.
- Durante os primeiros meses de vida, Joey foi ignorado pelos pais, não sendo objeto de desejo deles e nem estimulado para se constituir como sujeito.
- Com o tratamento terapêutico, os analistas acreditavam que um sujeito poderia existir, se colocaram na posição do Outro primordial proporcionando evoluções no quadro de Joey.

Referências Bibliográficas
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Karina Bueno, Equipe de monitoria de Psicanálise II/2010 - Barueri

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