terça-feira, 11 de março de 2014

Conferência XXVII- Transferência (1916/1917)

Conferência XXVII- Transferência (1916/1917)
·         Freud neste texto fala sobre o método da psicanálise
·         Inicia dizendo do adoecimento e a influência terapêutica que a analise pode exercer. Freud diz que existem as disposições hereditárias para o adoecimento e neste não se aprofundará. Existem as influências das experiências da infância e o que ele chama de ‘frustrações reais’.
·         O conflito psíquico é criado, pois existe uma tensão entre o impulso libidinal e a repressão sexual. O conflito não poderá ser resolvido enquanto os conteúdos ficarem em diferentes estruturas psíquicas. Esta seria a tarefa da terapia, traduzir o que está inconsciente em consciente, através de uma modificação psíquica: buscar a repressão, remover a resistência. O analista descobre este caminho e mostra aos poucos ao paciente (no caso das neuroses: neuróticos obsessivos e histéricos).
·         Freud faz esclarecimentos acerca do tratamento psicanalítico. O paciente deve tomar as decisões por si só. O analista não deve ser tomado como um mentor.
·         “Dizemos a nós próprios que todo aquele que conseguiu educar-se de modo a se conduzir de acordo com a verdade referente a si mesmo, está permanentemente protegido contra o perigo da imoralidade, conquanto seus padrões de moralidade possam diferir, em determinados aspectos, vigentes na sociedade.” P. 507.
·         Entretanto em outras formas de doenças (paranoia, melancolia, demência precoce) o mecanismo de tratamento comentado anteriormente não produzia efeito.
·         Freud a partir daí foi ver que o modo como estes pacientes se comportam em relação ao analista é diferente.
·         À este novo fenômeno presente no tratamento, Freud chamou de transferência, transferência de sentimento à pessoa do terapeuta.
·         “Superamos a transferência mostrando ao paciente que seus sentimentos não se originam da situação atual e não se aplicam à pessoa do médico, mas sim que eles estão repetindo algo que lhe aconteceu anteriormente.” P. 517
·         Neuroses de Transferência: histeria, histeria de angustia, neurose obsessiva.
·         Tipos de transferência: positiva, amor e ternura; negativa, sentimentos hostis e agressão; erótica.

Março/2014 - Revisado por Camila Natal Sanzi da Equipe de Monitores de Psicanálise - PUC/SP – Campus Barueri .


domingo, 9 de março de 2014

Bibliografia extra para o trabalho de Transferência

Textos sobre transferência- Bibliografia extra para trabalho.

LAPLANCHE, J; PONTALIS, J. B. Vocabulário de Psicanálise. São Paulo: Martins Fontes, 2008.
ROUDINESCO, E; PLON, M. Dicionário de Psicanálise. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.
FREUD, S. Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise. in Obras Completas, VOL XII, 1912.
MINERBO, M. Transferência e Contratransferência. Clínica Psicanalítica, Casa do Psicólogo, SP, 2012.
NASIO, J. D. Como trabalha um psicanalista? Jorge Zahar Editor
ROAZEN P. Como Freud trabalhava. Companhia das letras. (sem teoria, casos atendidos por Freud).
LAGACHE D. A transferência. Martins Fontes.
SLAVUTZKY A. Transferências. Editora Escuta
MEZAN R. Tempo de muda. Companhia das Letras.

FIGUEIRA S. A. Contratransferência- de Freud aos contemporâneos. Editora Casa do Psicologo

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

FREUD II - FEMINILIDADE (Conferência XXXIII, Vol. XXII, 1933)

FREUD II - FEMINILIDADE (Conferência XXXIII, Vol. XXII, 1933)

Nesta conferencia Freud fala a respeito de como se desenvolve a feminilidade na mulher e de sua entrada no complexo de Édipo.

Inicia dizendo que sempre houve uma distinção entre homens e mulheres. Anatomicamente os dois são diferentes, socialmente também. Os homens são considerados seres ativos enquanto as mulheres sempre foram consideradas passivas. O produtor sexual masculino, o espermatozoide, é ativo e o óvulo é passivo, pois este fica ali parado esperando o espermatozoide.

As contribuições anatômicas levam a pensar que o órgão masculino também esta presente na mulher ainda que atrofiado e vice-versa. De maneira que tanto homem como a mulher teriam indicações de bissexualidade, tendo se sobrepujado um ao outro dependendo do sexo. Entretanto, as características que constituem o homem e a mulher não se devem diminuir a isso.

Freud diz que na psicologia, é habituado empregar masculino e feminino também como qualidades mentais. Uma pessoa se comporta de maneira masculina em uma situação e feminina em outra. Pode-se considerar característica do feminino as atividades passivas e do masculino, ativas. Mas isto não significa chegar a um fim passivo, para isto é necessário grande quantidade de atividade.

O fator agressividade foi reduzido ao masculino, e as mulheres sempre foram consideradas mais dóceis, portanto em seu desenvolvimento, elas se desenvolvem mais rápido, necessitam mais de carinho. Há a influencia social também que faz as mulheres suprirem seu lado agressivo.
Ao suprirem a agressividade, favorece no desenvolvimento de impulsos masoquistas, que ligam as forças destrutivas que foram reprimidas.

Em comparação com os meninos, o desenvolvimento de uma mulher é mais difícil e mais complexo. Por ser mais dócil, a menina acaba sendo mais dependente, e acaba sendo fácil ensina-la a controlar suas excreções.

Na fase fálica, a zona erógena nas meninas é o clitóris, toda atividade masturbatória é executada com o equivalente do pênis. Porém, com a mudança para a feminilidade, o clitóris deve transferir sua sensibilidade para a vagina.

Para a menina seu primeiro objeto de amor também é a mãe, como o menino. Mas o menino mantém esse objeto amoroso, a menina tem que, além de mudar de zona erógena, mudar de objeto.

A menina passa durante as três fases do desenvolvimento sexual infantil tendo a mãe como objeto de amor, daí se dá a natureza das relações libidinais para com a mãe. Os desejos que movem essa relação representam impulsos ambivalentes, tanto passivos quanto ativos. A menina expressa em relação a sua mãe impulsos tanto carinhosos como hostis. A relação mãe e filha compreende uma configuração distinta daquela firmada com o menino, a mãe é a primeira mulher a seduzir a filha, a despender a ela os cuidados com o corpo e despertar sensações prazerosas.
Todos os desapontamentos que acontecem na vida da menina acontecem na vida do menino também, porém este não se afasta do objeto materno. As mulheres também são castradas, mas diferente dos meninos.

Freud diz que a menina sente uma ‘’inveja do pênis’’, o complexo de castração acontece quando a menina vê a diferenciação dos sexos e esta fica descontente por estar menos favorecida e culpa sua mãe por não ter dado aquilo para ela, e ela percebe que sua mãe também é castrada, assim a abandona.

Com a descoberta de que é castrada, partem três linhas de desenvolvimento possível:
- Inibição sexual ou neurose: devido à inveja do pênis ela inibe o prazer que tinha da sua sexualidade fálica. Comparando ao equipamento superior do menino, ela perde a satisfação masturbatória do clitóris. Esse abandono leva a passividade, e a menina volta-se para seu pai. O desejo que leva a menina voltar-se para seu pai é originalmente o desejo de possuir um pênis. Ainda isto é característica da fase masculina da mulher, para passar a fase feminina, este desejo deve passar ao desejo de querer um bebe.

 Antes ela também desejava um bebe só que dá mãe. O significado da menina em brincar com boneca é isso, ela reproduz o que sua mãe fazia com ela.
Com o desejo passado para o pai, inicia-se o complexo de Édipo na menina. O que acontece com a menina é que o complexo de castração a prepara para o complexo de édipo, ao contrario dos meninos, ao invés de destruí-lo, a menina é forçada a abandonar sua ligação com a mãe.

Segunda reação:
- Intenso complexo de masculinidade: a menina recusa a reconhecer o fato indesejado.  Apega-se a sua atividade clitoriana e identifica-se com sua mãe fálica e com seu pai.

E a terceira reação seria a feminilidade considerada comum.

Na identificação da mulher com sua mãe é possível perceber duas camadas: a pré-edipiana e a edipiana. Esta primeira fase é decisiva na vida da mulher, nesta fase são feitos os preparativos para as características que ela possuirá mais tarde exercendo seu papel na função sexual e realizar suas tarefas sociais.

Freud ainda fala de uma rigidez psíquica mais estabelecida na mulher do que no homem, que pode ser  resultado de um percurso psíquico imutável, como se o caminho da feminilidade tivesse exaurido as possibilidades de mudança.


Setembro/2014 - Revisado por Bruna Tiossi, Equipe de Monitores de Psicanálise - PUC/SP – Campus Barueri.


sábado, 14 de setembro de 2013

Desenvolvimento da libido e as organizações sexuais

Conferência XXI
Desenvolvimento da libido e as organizações sexuais

·         No começo do texto Freud levanta a importância das perversões para a compreensão de sexualidade. Não foi somente às perversões que o fizeram mudar o conceito de sexualidade, o estudo da sexualidade infantil também desempenhou este papel.

·         A noção freudiana de sexualidade não se restringe a genitalidade, vem além do corpo biológico e sua finalidade não é a procriação, mas sim o prazer.

·         Reconhecer que o que é psíquico não é só consciente (“Existe algo do sexual que não é genital assim como existe algo do psíquico que não é consciente”).

·         O que se pode definir por perversão é a substituição dos órgãos genitais por outro objeto qualquer na obtenção de prazer que não tenha por finalidade a reprodução, porém quando as ações pervertidas são inseridas no ato sexual normal para a contribuição intensificadora do ato, não são exatamente perversões.

·         Sexualidade pervertida e normal tem origem na sexualidade infantil. A diferença entre a perversa e a normal seriam seus instintos dominantes e seus fins sexuais. Mas cada uma tem um instinto dominante, uma centralização, já a sexualidade infantil não tem essa centralização.

·         Do sexto ao oitavo ano na criança pode-se observar o período de latência, estado em que há uma parada no desenvolvimento sexual. As experiências e impulsos mentais vividos antes deste período são esquecidos, o trabalho da psicanálise é trazer de volta a memória este período.

·         Antes da fase fálica, há outras fases que podem ser chamadas de pré-genitais, onde os instintos componentes são os sádicos e anais. Aqui os genitais desempenham apenas o papel de excreção. Contraste entre masculino e feminino não desempenha nenhum papel. (fase anal)

·         Anterior a fase anal, está a fase oral (local de prazer é a boca), ambas auto-erótica (pulsão sexual encontra o prazer sem recorrer a um objeto externo).

·         O primeiro objeto erótico de uma criança é o seio materno.

·         Depois o bebê substitui este objeto da fase oral e passa a ter como objeto de prazer uma área de seu próprio corpo.


·         Ele descreve o complexo de Édipo para os meninos, onde o menino compete com o pai a atenção de sua mãe. E para a menina é diferente por ela querer competir com a mãe a atenção com o pai.

·         O papel que a criança ocupa na família é de extrema importância na sua determinação de vida. Ele fala também sobre a vinda de um irmão ou irmã. A criança pode ver este como um intruso que quer roubar a sua mãe ou pai, e também pode toma-lo como objeto de desejo como substituto do pai/mãe que não pode ter.


Agosto/2014 - Revisado por Marina Monteiro, Equipe de Monitores de Psicanálise - PUC/SP – Campus Barueri.

sábado, 24 de agosto de 2013

Freud II - RESUMO
A dissolução do Complexo de Édipo (1924)
vol. XIX - Obras Completas de Sigmund Freud.
           

Neste texto, Freud apresenta a definição de Complexo de Édipo, como sua dinâmica ocorre nos meninos e nas meninas e sua dissolução.
O Complexo de Édipo é o fenômeno central do período sexual da primeira infância. Apesar de ser uma experiência individual, acontece com todos os seres humanos e tem como principal herança o superego.
Esse complexo envolve quatro conceitos principais: a fase fálica, a ameaça de castração, a formação do superego e o começo do período de latência (sublimação dos desejos incestuosos).
No menino, o complexo se inicia com o novo objeto da catexia libidinal, o pênis, inaugurando a fase fálica. Neste momento, o menino sente prazer com seu órgão genital e a manipulação torna-se constante. Esse novo comportamento é desaprovado pelos pais, que ameaçam castrar a criança. Essa ameaça, porém, só é levada a sério quando o menino se depara com o órgão genital feminino. Ele, então, nota a ausência de pênis e sofre com a ameaça de castração.
Freud relata duas experiências prévias de castração pelas quais as crianças passam e que marcam o psiquismo, sendo revividas na possibilidade de castração do pênis. A retirada do seio materno – o desmame – e a exigência feita para soltarem os conteúdos do intestino – controle esfincteriano, são os dois processos que preparam a criança para a perda de partes valorizadas do corpo.
Além da masturbação, que oferece ao menino uma descarga de excitação sexual pertinente ao momento vivido por ela, o complexo de Édipo lhe oferece duas possibilidades de satisfação: ele pode se colocar no lugar do pai e desejar ter relações com a mãe, ou pode colocar-se no lugar da mãe e desejar ser amado pelo pai – a mãe perderia a importância nesse caso. A criança, porém, vê as duas possibilidades de satisfação se acabarem quando percebe que sua identificação com o pai levaria a possibilidade de castração e sua identificação com a mãe, a castração como uma precondição. Acontece, assim, um conflito entre o interesse narcísico e os objetos parentais. Normalmente, o narcisismo prevalece e o ego da criança dá as costas ao Complexo de Édipo, dando lugar as identificações.
O menino percebe então a autoridade do pai ou dos pais, formando aí o núcleo do superego, que apresenta-se com constantes proibições, como o incesto. Nesse momento, os desejos sexuais edípicos são sublimados, transformando-se em impulsos de afeição, uma vez que a criança se direciona para a sua vida social e escolar. Inicia-se o período de latência, caracterizado pelo processo de sublimação, preservação do órgão genital e a remoção de sua função, interrompendo o desenvolvimento sexual do menino.
Já com relação às meninas, a fase fálica começa com o interesse pelo órgão genital e a castração aparece quando a comparação é feita de seu órgão com o de um companheiro de outro sexo, levando-a a sentir-se inferior e injustiçada. Diferente do menino, ela vive com o sentimento de já ter sido castrada, pois acredita que um dia teve o pênis e este lhe foi tirado. Também acredita na possibilidade de tê-lo de volta, ramificando o complexo de masculinidade. Assim como com o menino, o superego na menina começa a ser estabelecido assim que a castração é percebida. Ela passa a ver os pais como autoridade, se submetendo às suas regras.
            No complexo de Édipo, a menina deseja assumir o lugar da mãe e ter relações com o pai, adotando uma atitude feminina com ele. A partir da aceitação da castração como um fato consumado, a menina procura uma compensação para sua ausência de pênis, passando então, a desejar ter um bebê com o pai. Seu complexo termina ao ver que seus dois desejos, possuir um pênis e ter um filho com o pai, não acontecerão. Eles se estabilizam, então, no inconsciente da menina e são sublimados para as relações sociais, por exemplo.
            Vale ressaltar que tanto o complexo de Édipo masculino quanto o feminino, precisa ser abolido pelo ego da criança. Se for feita apenas uma repressão dos desejos incestuosos, estes permanecerão inconscientes no id, podendo retornar sob formas patológicas. Segundo Freud, é esta linha tênue que definiria o estado normal ou patológico da constituição psíquica de um sujeito.



  
           
Setembro/2014 - Elaborado por Regina Cordeiro, Equipe de Monitores de Psicanálise - PUC/SP – Campus Barueri.






sábado, 15 de junho de 2013

“A Questão de uma Weltanschauung” S. Freud – Conferência XXXV – em: Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, (1933 [1932]), Vol. XXII.

“A Questão de uma Weltanschauung” S. Freud – Conferência XXXV – em: Novas Conferências Introdutórias sobre Psicanálise, (1933 [1932]), Vol. XXII.

No alemão corrente, uma Weltanschauung é o que chamamos na língua portuguesa de “visão de mundo”, a qual cada um pode ter a sua e não encerra uma verdade em si. No entanto, Freud dota essa palavra de um significado especial, justificando que é um conceito especificamente alemão de difícil tradução. Em sua opinião,

“a Weltanschauung” é uma construção intelectual que soluciona todos os problemas de nossa existência, uniformemente, com base em uma hipótese superior dominante, a qual, por conseguinte, não deixa nenhuma pergunta sem resposta e na qual tudo o que nos interessa encontra um lugar fixo (FREUD, 1933, p.155).

Freud diz que, sendo a psicanálise uma ciência especializada do ramo da psicologia, ela é incapaz de construir por si mesma uma Weltanschauung, e desse modo, adere a Weltanschauung científica. Esta por sua vez, recebeu a importante contribuição da psicanálise, que estendeu a pesquisa à área mental. Mas, mesmo assim, a Weltanschauung científica, “dificilmente merece um nome tão grandiloquente, pois não é capaz de abranger tudo, é muito incompleta...” (p. 177).

Embora aponte as fragilidades de uma Weltanschauung científica, Freud a defenderá, em oposição a outros campos como: a arte, a filosofia, e principalmente a religião, justificando que a Weltanschauung científica trata de questões da esfera do conhecimento, enquanto as outras da ilusão. Para o autor, a arte é inócua e benéfica e não procura ser mais do que uma ilusão; a filosofia não se opõe à ciência, trabalha inclusive com os mesmos métodos, mas também é uma ilusão na medida em que acredita ser capaz de explicar o universo e aceita como fontes de conhecimento, a intuição; já a religião tem um poder imenso e em períodos anteriores construiu uma Weltanschauung coerente e auto-suficiente num grau sem precedentes e que, embora abalada, persiste na atualidade. Ela é a única capaz de rivalizar como uma Weltanschauung científica, pois oferece aos seres humanos informações a respeito da origem e da existência do universo, assegura-lhes proteção e felicidade nos altos e baixos da vida e dirige seus pensamentos e ações a partir de preceitos impostos com autoridade. Com isso preenche três funções:
·                     Satisfaz a sede de conhecimento do homem;
·                     Acalma o medo que o homem sente em relação aos perigos e vicissitudes da vida;
·                     Estabelece preceitos, proibições e restrições.

Freud faz uma comparação das funções que a religião preenche com as experiências infantis. Lembrando que o Deus-criador é abertamente chamado de ‘pai,’ diz que:
“A mesma pessoa, à qual a criança deveu sua existência, o pai (ou, mais corretamente, sem dúvida, a instância parental composto do pai e da mãe), também protegeu e cuidou da criança em sua debilidade e desamparo, exposta que estava a todos os perigos que a esperavam no mundo externo; sob a proteção do pai, a criança se sentiu segura.” (FREUD, 1933, p. 159)
Desse modo, assim como Deus-Pai criou o universo, também o filho atribuiu a sua própria existência e a existência do mundo ao pai. Quando a criança se torna adulta, o desamparo não desaparece. Mesmo nessa nova condição, necessita de proteção. No entanto, reconhece que seu pai não possui os dotes imaginados na sua infância. Por isso, retorna à imagem mnêmica do pai, a quem supervalorizava na infância. Exalta a imagem, transformando-a em divindade, e tornando-a contemporânea e real na figura de Deus-Pai, o qual promete proteção e felicidade. É essa necessidade que sustenta a crença em Deus. Ademais, assim como o pai educou a criança no sentido de adaptar-se a determinadas restrições em seus desejos pulsionais mediante um sistema de recompensas carinhosas ou punições; também encontramos essa relação na religião, onde a quantidade de proteção e de satisfação destinadas a uma pessoa depende de seu cumprimento dos preceitos religiosos.
Freud conclui que a “Weltanschauung religiosa é determinada pela situação de nossa infância” (p. 161) E, embora a religião com seus milagres, suas doutrinas da origem do universo, suas promessas de proteção e felicidade, já havia se mostrado indigna de créditos a partir de um exame crítico pelo espírito científico, a última contribuição “à crítica da “Weltanschauung” da religião foi feita pela psicanálise, ao mostrar como a religião se originou a partir do desamparo da criança, e ao atribuir seu conteúdo à sobrevivência, na idade madura, de desejos e necessidades da infância” (p.163)
Freud aponta que a religião coloca uma objeção em ser estudada como objeto de investigação, pois a religião é da ordem do sublime e, portanto, não pode ser medida por critérios humanos. Em resposta a isso, Freud diz que:
“de modo algum, está sendo cogitada uma invasão da área da religião pelo espírito científico; pelo contrário, sim uma invasão, pela religião, na esfera do pensamento cientifico. Qualquer que seja seu valor e importância, ela não tem o direito, em nenhum sentido, de limitar o pensamento – não tem o direito, portanto, de se furtar à eventualidade de o pensamento tentar investigá-la”(p. 166)
Freud prossegue, e nesse momento sua crítica à religião se aproxima de sua crítica à filosofia e à arte, nas quais o conhecimento e a verdade são destituídos pela ilusão. O autor explica que o pensar científico se esforça no sentido de chegar à correspondência com a realidade, com aquilo que é externo e independente de nós, mas decisivo para a satisfação ou decepção de nossos desejos. “A essa correspondência com o mundo externo real chamamos de ‘verdade’” (p.166). Nesse sentido, a religião por ser benéfica e porque dignifica não deve afirmar poder tomar o lugar da ciência, pois não trata da verdade. Freud diz que poderia ser posto um fim nesta questão se a religião declarasse que:
“Realmente não posso dar-lhes o que comumente é chamado de ‘verdade’; se a querem, apeguem-se a ciência. Mas o que tenho a oferecer-lhes é algo incomparavelmente mais belo, mais consolador e mais elevado do que tudo o que podem conseguir da ciência. E, por causa disso digo-lhes que é verdadeiro, num outro sentido, mais elevado” (p. 167)
No entanto, a religião não faria tal declaração, pois perderia toda sua influência sobre a massa da humanidade. Desse modo, os adeptos da Weltanschauung religiosa defendem-se por meio do ataque. Dizem eles que a religião já teria levado consolo e salvação pra vida de milhões de pessoas por milhares de anos; enquanto a ciência admite ser incapaz de proporcionar consolo e alegria. Dizem eles que:
tudo que ela ensina é provisoriamente verdadeiro: o que hoje é valorizado como a mais alta sabedoria, amanhã será rejeitado e substituído por alguma outra coisa, embora esta seja apenas uma tentativa. O último erro é, então, qualificado como verdade.” (p.168)
Freud responde a essa crítica dizendo que a ciência ainda é muito nova; uma atividade humana que se desenvolveu tardiamente. Cita como exemplo que, já havia nascido quando Darwin publicou seu livro sobre a origem das espécies. No entanto, admite que a marcha da ciência é lenta e suas respostas, de fato, são provisórias. O autor compara a pesquisa científica com a análise, que também tem um ritmo lento e está sempre reformulando as hipóteses, renunciando às convicções precoces, de modo a não ser levada a negligenciar fatores inesperados. Também defende que há um exagero nas críticas à ciência; ela não cambaleia, cega, de um experimento a outro. Há sim, um fundamento que é somente modificado e aperfeiçoado, mas não demolido.
No entanto, ainda que incompleta, a ciência é indispensável. Ela é capaz de melhoramentos jamais sonhados, ao passo que a Weltanschauung religiosa não é. “Esta está completa em todas as suas partes essenciais; se ela foi um erro, assim deve ser, para sempre” (p.170). Freud diz que não se pode menosprezar que, enquanto a ciência considera o mundo externo real, a religião é uma ilusão e sua força está nas nossas pulsões carregadas de desejos.
Freud prossegue com as outras Weltanschauugen que se opõem à posição científica: a anarquista/niilista e a marxista.
A primeira equivale a um anarquismo político e embora parta da ciência, suas preconizações a auto-anula.  Segundo a teoria anarquista, a verdade não existe, não há um conhecimento seguro do mundo real. O homem veria na realidade aquilo que deseja ver, ou seja, a verdade é uma ilusão. A princípio essa teoria parece superior enquanto se refere a questões abstratas, mas, segundo Freud, desmorona diante das questões práticas.
Quanto à segunda, trata-se da Weltanschauung marxista. Esta declara que o desenvolvimento das formas de sociedade é um processo histórico natural, que as mudanças na estratificação social surgem umas das outras segundo um processo dialético e que os fatores econômicos exercem uma influência determinante sobre as atitudes humanas. Freud refuta tanto o caráter natural da dialética histórica como a primazia das condições econômicas, colocando em pauta os fatores psicológicos como: a pulsão de autopreservação, a agressividade, a necessidade de ser amado, a tendência a procurar obter prazer e evitar desprazer. Segundo Freud, “é inquestionável que indivíduos, raças e nações diferentes se conduzem de forma diferente, sob as mesmas condições econômicas” (p.173). Isso atestaria que os fatores econômicos não são os únicos no estabelecimento das estruturas nas sociedades, estas não podem ser pensadas a revelia dos fatores psicológicos, que concorrem para o estabelecimento das condições econômicas, e por outro lado necessitam delas para se expressar.
No entanto, a crítica mais contundente de Freud à Weltanschauung marxista refere-se à imposição marxista de uma proibição do pensamento crítico. Freud diz:
“Embora sendo originalmente uma parcela da ciência, e construído em sua implementação, sobre a ciência e a tecnologia, criou uma proibição para o pensamento que é exatamente tão intolerante como o era a religião, no passado. Qualquer exame crítico do marxismo está proibido, dúvidas referentes à sua correção são punidas, do mesmo modo que uma heresia, em outras épocas, era punida pela Igreja Católica. Os escritos de Marx assumiram o lugar da Bíblia e do Alcorãocomo fonte de revelação, embora não parecessem ser mais isentos de contradições e obscuridades do que esses antigos livros sagrados” (p. 175).
Além disso, a Weltanschauung marxista também desenvolve a ilusão, promete um futuro melhor, no qual não há necessidade insatisfeita. Freud novamente aponta para a influência dos fatores psicológicos: é impossível prescindir da coerção, é impossível uma convivência despojada de atritos na ordem da sociedade, é impossível alterar a natureza humana.
Freud conclui o texto dizendo que a psicanálise é incapaz de construir Weltanschauung; ela não precisa de uma Weltanschauung, pois faz parte da ciência e pode aderir a sua Weltanschauung científica, que tem como traço a submissão à verdade e a rejeição às ilusões.


Junho/2013 – Elaborado por Anna Miha e revisado por Manuella Juliani, da Equipe de Monitores de Psicanálise - PUC/SP – Campus Barueri .


terça-feira, 4 de junho de 2013

A Elaboração Onírica

2ª Unidade – Resumo de:

A Elaboração Onírica (S. Freud – Conferências Introdutórias à Psicanálise, Os Sonhos. 1916, vol. XV, Cap. XI)

Nesse texto, Freud se propõe a elucidar os mecanismos presentes na elaboração onírica. Inicialmente, relembra aos leitores que a elaboração onírica é o trabalho que transforma os conteúdos latentes (pensamentos inconscientes) em sonho manifesto (representações conscientes), enquanto o trabalho interpretativo ocorre pela via contrária, ou seja, a partir do sonho manifesto chega-se aos conteúdos latentes.

Freud aponta que os sonhos infantis não necessitam de interpretação, pois são evidentemente realizações de desejos. Mas, mesmo os sonhos infantis sofrem transformações:
- de desejos em imagens de realização da experiência desejada.
- de pensamentos em imagens visuais.

No entanto, o que interessa a Freud nesse texto são as deformações que se operam na elaboração onírica dos sonhos dos adultos, essas é que devem ser decifradas através do trabalho interpretativo. Freud aponta quatro mecanismos que se processam na elaboração onírica: condensação; deslocamento; figurabilidade (transformações de pensamentos em imagens); e a elaboração secundária, que age sobre os produtos primários da elaboração onírica.

Condensação:
- diversos conteúdos latentes se combinam e se fundem em um elemento (pessoa, lugar, objeto, etc.) do sonho manifesto. Dessa forma, um elemento manifesto pode corresponder simultaneamente a diversos elementos latentes. Isso pode se dar de diversas formas:
·                     Determinados conteúdos latentes, por terem algo em comum, se fundem em um elemento no sonho manifesto. Desse modo, as semelhanças no material latente são substituídas por um único elemento no sonho manifesto.
·                     Mas também os contrários são tratados da mesma forma que as semelhanças, sendo preferencialmente expressados pelo mesmo elemento psíquico. Assim, um elemento no sonho manifesto pode estar expressando a si mesmo, ou o seu contrário, ou ainda ambos. Isso significa que nenhuma representação no sonho está isenta de ambiguidade, apenas o sentido que se lhe dará poderá decidir qual versão escolher.
·                     Diversos conteúdos latentes podem ser combinados numa unidade desarmônica juntando-se parte de cada conteúdo, tal como nos centauros e nos animais fabulosos da mitologia.
- por outro lado, um elemento latente pode se fazer representar em diversos elementos manifestos.
- O sonho manifesto possui um conteúdo menor que o do sonho latente (nunca ocorre o inverso).
- a condensação não é efeito da censura, mas ocorre devido a um fator automático ou econômico, em todo o caso, a censura lucra com ela.

Deslocamento:
Manifesta-se de duas maneiras:
- um elemento latente é substituído não por uma parte componente de si mesmo, mas por alguma coisa mais remota, isto é, uma alusão.
- o acento psíquico é mudado de uma coisa importante para outras sem importância, de forma que o sonho parece descentrado e estranho.
- o deslocamento é obra da censura dos sonhos.

Figurabilidade:
- Consiste em transformar pensamentos latentes, que são expressos em palavras, em imagens sensoriais, a maioria na forma de imagens visuais.
- Não afeta tudo nos pensamentos oníricos; alguns deles aparecem no sonho manifesto também como pensamentos ou conhecimentos, portanto não são as imagens visuais a única forma na qual os pensamentos se transformam (mas, ainda sim, são a essência da formação dos sonhos).
- Esse processo ocorre na forma de regressão, uma vez que os pensamentos originalmente surgiram de imagens sensoriais.
- a figurabilidade atende as necessidades da condensação e do deslocamento no processo da elaboração onírica.

Elaboração Secundária:
- Confere um aspecto de unidade em maior ou menor grau de coerência aos produtos primários - condensação, deslocamento, figurabilidade - da elaboração onírica.

Ao final do texto, Freud adverte que as atividades da elaboração onírica se resumem nos quatro mecanismos apontados acima e que ela é incapaz de formar discurso. Os discursos no sonho manifesto, na maioria das vezes, são cópias e combinações que alguém ouviu ou enunciou para si mesmo no dia anterior ao sonho (restos diurnos) e que encontram conexão com os conteúdos inconscientes instigando-os para que surjam no sonho. 

Maio/2013 - Elaborado por Camila Sanzi e Karina Bueno, Equipe de Monitores de Psicanálise - PUC/SP – Campus Barueri .


O Conteúdo Manifesto dos Sonhos e os Pensamentos Oníricos Latentes

2ª Unidade – Resumo de:

O Conteúdo Manifesto dos Sonhos e os Pensamentos Oníricos Latentes (S. Freud – Conferências Introdutórias à Psicanálise, Os Sonhos. 1916, vol. XV, Cap. VII)

Na Conferência VII, Freud teoriza sobre a diferença entre os conteúdos manifestos do sonho e dos pensamentos oníricos latentes. O autor afirma que os elementos constitutivos do sonho não se apresentam em sua forma original, ou seja, substituem algo que está presente na psique do sonhador, porém inconsciente. Freud sinaliza que a técnica da associação livre é utilizada para se desvelar o que está por trás dos elementos confusos de um sonho.
O autor afirma que “... o sonho como um todo constitui um substituto deformado de alguma outra coisa, algo inconsciente, e que a tarefa de interpretar um sonho é descobrir esse material inconsciente.”. (FREUD, 1916, p.118). Desta maneira Freud pontua que o trabalho de interpretação de um sonho deve se basear em três regras, que são:

1)    Não se deve atentar demasiadamente aquilo que o sonho parece nos dizer, seja compreensível ou absurdo, claro ou confuso, de vez que pode não ser o conteúdo inconsciente procurado.

2)    Deve-se restringir ao trabalho de recordar as ideias substitutivas de cada elemento. Não se deve refletir sobre elas, nem considerá-las à priori como relevantes à análise.

3)    Deve-se aguardar até que o material inconsciente surja espontaneamente, na associação livre.

Com estas regras Freud tenta solucionar a questão de que o sonho recordado não é o material onírico latente, mas sim um substituto deformado dele. O autor salienta que esta deformação realizada no conteúdo inconsciente (através dos mecanismos de deslocamento e condensação) não se efetua sem motivo.
Ao pedirmos para que o sonhador associe livremente sobre seu sonho, contando qualquer ideia que lhe surja no pensamento, mesmo que tal conteúdo parece ser sem importância, sem sentido, irrelevante ou desagradável, naturalmente esperamos que este fracasse no que lhe é pedido. O que ocorre é que sabemos da atuação do mecanismo psíquico da Resistência, que tende a manter ocultos os conteúdos mais essenciais do sonho.
Freud postula uma concepção dinâmica da resistência, o que indica que ela pode variar em quantidade, ou seja, existem resistências menores e resistências maiores. Este concepção implica que se a resistência é pequena o conteúdo manifesto do sonho se aproxima do conteúdo latente, por outro lado se a resistência é grande os conteúdos manifestos e latentes distanciam demasiadamente em aparência e importância.
O autor exemplifica estas proposições contando alguns sonhos coletados em casos clínicos:

A)    Mulher que sonho com Deus usando um chapéu de três pontas.
- Durante a interpretação do sonho a mulher lembra que quando criança usava este tipo de chapéu quando à mesa de refeição. Lembra-se de vigiar o prato dos irmãos achando que estes não podiam perceber que ela estava olhando. Associa com o fato de acreditar que Deus é onisciente. Assim associa que o uso do chapéu a deixava onisciente sobre o prato dos irmãos.

B)   Mulher que se mostrava cética ao tratamento, sonhou que muitas pessoas elogiavam um trabalho de Freud sobre Chistes para ela. Lembrava também tratar o sonho de algo sobre “Canal”, porém não se recordava completamente.
- O sonho estava relacionado à um chiste que havia ouvido sobre o Canal da Mancha que liga Inglaterra e França, sendo que no chiste este canal liga o sublime (França) ao ridículo (Inglaterra). O ceticismo ao tratamento é substituído por este chiste no sonho, de maneira que discursa o que a paciente sentia em relação ao tratamento – ridículo e sublime, ao mesmo tempo.

C)    Paciente que sonhou que diversos membros de sua família estavam sentados em volta de uma mesa “Tisch”.
- Na interpretação deste sonho o paciente revelou que possuía amigos de uma tal família chamada “Tischler”, e que a relação familiar entre pai e filho desta famílias se assemelhava muito com a sua própria e a com seu pai.

D)   Um sonhador que estava puxando certa mulher de trás de sua cama.
Revelou em análise sentir-se atraído por ela.

E)    Homem sonhou que seu irmão estava em uma caixa (Kasten).
- trocou a palavra em uma parapraxia, por “armário” (Schrank), dando a entender que seu sentia que seu irmão estava se “restringindo” (Schränkt)

F)    Um homem sonhou que estava escalando uma montanha onde observava uma vista panorâmica.
- Se deu em análise que na realidade o homem associo à seu editor de uma revista (Rundschau), que fora substituída pela imagem panorâmica (Rundschauer).

            Por fim Freud analisa um sonho extenso. Trata-se uma mulher que sonhara estar no teatro com o marido. Este a diz que Elise L. e o noivo, também pretendiam ir, mas só haviam conseguido lugares ruins, por 1 florin e 50 kreuzers. Em análise a mulher relaciona estes sonhos com duas ideias principais à de considerar que seu marido “vale pouco” e a de que esta tal Elise L. está casando muito cedo, como a própria mulher o fez e se arrepende.
            O autor tenta neste texto demonstrar como um conteúdo manifesto substitui de maneira distorcida o conteúdo latente deste sonho. Esta substituição é auxiliada pela Resistência que pode atuar em proporções diversas dependendo da qualidade deste conteúdo a ser omitido.


Maio/2013 - Elaborado por Camila Sanzi e Karina Bueno, Equipe de Monitores de Psicanálise - PUC/SP – Campus Barueri .